Vão-se os anéis

Enquanto a FIA de Mohammed bem Sulayem não apresentar um documento claro explicando os motivos da 'regra dos anéis', a briga parece banal e focada, como Sebastian Vettel disse, a atingir Lewis Hamilton

No Paddock GP desta semana, abri o programa com um editorial sobre a decisão da FIA em reforçar seus gloriosos padrões de segurança através de uma determinação que existe desde 2005 sobre o uso de anéis, relógios, alegorias e adereços. Não me parece que a douta entidade tenha qualquer preocupação com o assunto vide dois episódios recentes. Lembra muito um país fictício onde, sei lá, a fome volta a existir com força e o governo esteja, por exemplo, preocupação em transformar as palavras bíblicas em salmos pétreos.

Enquanto a federação agora presidida pelo tal Mohammed bem Sulayem não apresentar um documento claro explicando os motivos, a briga parece banal e focada, como Sebastian Vettel disse, a atingir Lewis Hamilton.

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O ódio a Hamilton

É curioso verificar como essa gente espera um momento em que o maior piloto da história da Fórmula 1 não vence ou não chega à frente do seu companheiro para destilar um ranço que precede um ódio travestido

O Paddock GP desta semana começou com um editorial meu a respeito das críticas que estão sendo feitas a Lewis Hamilton, seja de comentaristas-pilotos ou do público. É curioso verificar como essa gente espera um momento em que o maior piloto da história da Fórmula 1 não vence ou não chega à frente do seu companheiro para destilar um ranço que precede um ódio travestido sem uma análise sequer embasada.

Não chega a ser curioso, pois, entender os motivos das críticas.

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Pino acionado

Depois de dois abandonos em três corridas, a conclusão é óbvia: eu não queria ser pulga de Christian Horner, Adrian Newey e do próprio Marko se a diferença para Leclerc em Ímola aumentar

Os treinos do GP da Austrália evidenciaram uma situação que não havia sido vista recentemente: a dificuldade que Max Verstappen teve para encontrar uma volta ideal e o acerto do carro da Red Bull. Na penúltima curva, terceiro setor, o holandês errou várias vezes. Na corrida, embora caminhasse para um segundo lugar tranquilo, em nenhum momento esteve perto de ameaçar a liderança de Charles Leclerc e rapidamente viu-se em apuros ao destruir os pneus, andando até 1s por volta mais lento que o adversário da Ferrari.

Ao mesmo tempo, Sergio Pérez não pareceu padecer dos meus problemas.

O mexicano está andando muito mais perto de Verstappen neste ano. É um fato reconhecido por Helmut Marko – cujas palavras sempre devem ser vistas com a parcimônia devida; tem doutorado em ABHE: Abertura de Boca em Hora Errada. Mas a pole na Arábia Saudita e o desempenho de Pérez nestes mesmos treinos supracitados no Albert Park lhe conferem algum crédito.

Por isso, há de também se crer no que disse sobre o estilo de Max e este novo carro: não casam. Verstappen é muito agressivo e o RB18 é muito peculiar no acerto. Encontrar uma sintonia fina é muito mais difícil, ainda mais para uma equipe que levou até o fim a disputa do campeonato do ano passado e comprometeu, como a Mercedes, a temporada deste ano – recomendo, pois, a edição do Paddockast que se debruça sobre o assunto. Max teria de se reinventar. Alguém imagina Verstappen pegando mais leve e indo contra sua essência?

O ponto é, ainda segundo o consultor da Red Bull, a consequência: Verstappen se transformar em uma bomba-relógio se ficar sem disputar as vitórias. Porque aí junta tudo: Max não se sente confortável e tem de adaptar a um carro que não tem a melhor estabilidade do mundo. Se não se sente confortável, não há de culpar a si na condição de atual campeão, mas o time que não lhe deu o equipamento ideal. O agora mais calmo Verstappen pode, a qualquer momento, acionar o pino.

Depois de dois abandonos em três corridas na temporada 2022 da Fórmula 1, a conclusão é óbvia: eu não queria ser pulga de Christian Horner, Adrian Newey e do próprio Marko se a diferença para Leclerc em Ímola aumentar. E isso só tende a não acontecer se a chuva prevista para o fim de semana compuser o suco de maracujá que Verstappen tem de beber.

O pessoal do GRANDE PRÊMIO falou muito disso no TT GP, ó:

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Arábia Maldita, 2

Na segunda etapa do ano, F1 vê Mercedes já partindo para o tudo ou nada e uma classificação que permite pensar em luta de 4 pilotos pela vitória

A Mercedes começou os treinos livres na Arábia Saudita em um ritmo muito próximo ao que apresentara dias antes no Bahrein, com a pinta de que seria a terceira força. No sábado pela manhã, já havia alguma dúvida se passaria para o Q3, já que havia ficado atrás dos carros empurrados por Ferrari e Red Bull/Honda. Fez-se a reunião ali nos boxes. E já no segundo treino classificatório da temporada da graça de 2022, a equipe já foi para o tudo ou nada: partiu para um acerto arriscadíssimo no carro de Lewis Hamilton.

O resultado é este que vimos com assombro: a pior performance do heptacampeão da Fórmula 1 em quase 13 anos. O 16 lugar poderia ter sido ainda pior se Yuki Tsunoda tivesse participado da sessão sem a falha hidráulica em sua AlphaTauri. Mas o acerto é tão horrível que a Mercedes vai mexer nesta pemba e preferir largar dos boxes.

Hamilton não está apenas incomodado com o carro ainda mal ajustado que tem. Deu para ver nas entrevistas que o inglês não vê a hora de se pirulitar da Arábia. Lewis e outros quatro pilotos, segundo La Gazzetta dello Sport, não queriam correr neste fim de semana: Fernando Alonso, George Russell, Pierre Gasly e Lance Stroll. Estou realmente no aguardo das palavras de Hamilton fora daquele país. Entender o que ele falou e passou aos demais. Ter uma posição firme de que foi feito de refém, como os demais, para satisfazer a Fórmula 1 e o governo saudita. Não pisar mais lá.

Mas é bom não ter expectativa sobre o que ele vai dizer para não me decepcionar.

A classificação viu também dois acidentes, de Nicholas Latifi e Mick Schumacher. Pelo retrospecto de ambos, esperado. O canadense da Williams nada sofreu; o alemão da Haas assustou pela intensidade do impacto. O filho de Michael não corre neste domingo por precaução e porque a equipe não tem como arrumar aquele chassi a tempo. Mas o ponto é, novamente: quem diabos permitiu que a Fórmula 1 corresse nesta desgraçada pista de Jedá? O rapidíssimo circuito é envolto de muros. Não há um soft wall ou um safer-barrier que absorva o impacto. Schumacher não ter saído com uma lesão ou mesmo concussão é, além do atestado de segurança dos atuais carros, puramente sorte.

Eu sei o que a Fórmula 1 faz na Arábia Saudita, mas reforço a questão: pra que está lá em termos esportivos?

Sergio Pérez levou 213 provas e alguns contos de réis mexicanos para conseguir sua primeira pole na F1. Esperava? Nunca. Jamais. Quando Carlos Sainz começou a engatar uma sequência de melhores tempos em Q1 e Q2, parecia que ninguém lhe tiraria a primeira colocação. Também nos enganou: o espanhol fez como no Bahrein, em que chegou a despontar como o favorito, e no fim terminou em terceiro, novamente atrás de Charles Leclerc. O monegasco, aliás, liderou os três TLs e ficou a posição de honra.

Então, em quarto, Max Verstappen. Também reclamou que o carro não estava fácil de guiar. Mas a configuração do grid permite apontar que os quatro primeiros têm chance de vitória neste domingo, o que, ao menos, é um alento de emoção para um fim de semana que nem deveria estar em curso.

Curioso será, pois, ver Pérez largando na frente e contornando a primeira curva nesta condição. Porque nunca lhe aconteceu isso na vida, de modo que nem tendo a experiência que tem será capaz de garantir suas ações. Leclerc e Sainz têm carros bem competitivos, e desta vez o espanhol tende a acompanhar os demais. E Verstappen vai ficar ali enchouriçando. Lembre-se que o motor da Red Bull está com maior velocidade final que o da Ferrari. Com asa aberta, no retão principal, pode dar jogo.

Esteban Ocon lidera o pelotão do resto e começa a temporada 2022 mais adaptado a este carro da Alpine que Alonso, que sai em sétimo. George Russell ocupa o lugar que seria dele, de fato, o sexto, mas não seria estranho ter ficado mais atrás. Parece que Valtteri Bottas e, sobretudo, Kevin Magnussen tinham condições de fazer voltas melhores que as dele. O dinamarquês reclamou novamente de dores fortes no pescoço e já tem dúvidas de como será sua performance na corrida se voltar a incomodar como neste sábado.

O GP da Arábia se desenha com o temor das batidas. Um acidente qualquer vai provocar pelo menos a entrada do safety-car. Se houver destroços ou necessidade maior de atendimento, é bandeira vermelha. Esportivamente falando, as equipes vão ter de ficar bastante atentas a tais condições para jogar com o regulamento debaixo do braço: com paralisação, dá para mexer no carro à vontade, de modo que retardar a parada nos boxes é o melhor dos cenários.

Ainda que o top-4 tenha chances, me parece que as menores são justamente do pole, Pérez. Só de ver que Checo celebrou a volta como se nunca conseguisse outra igual, dá para ver que foi uma exceção. Sergio não costuma ter ritmo de corrida forte. Assim, os outros três, que são mais fortes e mais rápidos, reúnem condições interessantemente parecidas. Apostaria novamente em Leclerc. Mas nem de longe gastaria todo meu dinheiro nisso.

Por fim: ainda que não preste além da sua existência como evento esportivo, estou gostando da Fórmula 1 2022.


Não entendi por que Pérez não recebeu de Gordon Ramsey um kibe ou uma bomba…

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Arábia Maldita

A decisão de ter e manter um GP da Arábia Saudita com uma alegação tipo ‘la garantia soy yo’, sem se escorar em uma razão minimamente plausível ou mesmo racional, mostra a que a Fórmula 1 se presta. Mostra que não presta

Dava para ver claramente as chamas e as cinzas da refinaria acertada por um míssil a 10 km de qualquer ponto do circuito de Jedá. O ataque, assumido pela milícia Houthi, do Iêmen, é o segundo em seis dias àquele local que pertence à Aramco, a petrolífera local. Nesta sexta-feira (25), aconteceu entre o fim do treino livre 1 da Fórmula 1 e a classificação da Fórmula 2. O foco da FIA e da organização do GP da Arábia estava em fazer os carros andarem na pista.

Há mais de sete anos o Iêmen vive uma guerra civil provocada por estes rebeldes e que levou Arábia Saudita e Emirados Arábes a se unirem, com a bênção de Estados Unidos, Reino Unido e França, para atacar aquele país. O conflito se intensificou neste ano. Segundo a ONU, mais de 377 mil pessoas já morreram no Iêmen e mais de 10 mil crianças estão ou nesta conta ou feridas. Mais de 80% da população precisa de assistência humanitária e proteção. 19 milhões de iemenitas passam fome. Não há cuidados médicos e sequer água potável.

A tragédia daquele povo não põe bandeirinha ao lado da arroba no Twitter. O mundo não conta a ninguém. O Iêmen não fica na Europa.

Mas se o mundo não conhece nada de Iêmen, sabe bem quem é a Arábia Saudita, seu desrespeito a direitos humanos, às mulheres e às minorias, comandada por um ditador que impõe restrições religiosas e políticas e que, na ponta final, leva a punições cruéis, penas de morte e execuções brutais. O que faz a Arábia ser aceitável é o dinheiro e o petróleo. E se falou em dinheiro, a Fórmula 1 abraça.

A Fórmula 1 topou correr no Bahrein, ainda sob comando de Bernie Ecclestone, quando aquele país passava por uma guerra civil e por condições que não são muito diferentes das vistas na Arábia. Não se pode dizer que a categoria era incoerente: fez o mesmo na África do Sul nos tempos de apartheid. Quando assinou o contrato para correr em Jedá, pois, a F1 se aliou a tudo que havia de pior em termos humanitários para engordar seu caixa. A Aramco – a mesma companhia que tem sido atacada pelos Routhis – é a ponta de tudo isso: basta reparar em qualquer lugar em que se busque a F1, seja no mundo digital ou nas pistas, como besuntam o logo em todos os cantos.

Assim, Stefano Domenicali, Ross Brawn e quem quer que seja da cúpula da Fórmula 1 e da FIA não podiam fazer cara de espanto e surpresa com o fogaréu ali do lado deles. Foram e são eles que, direta ou indiretamente, deram respaldo a tal situação. Mas, embora esperado, espantoso mesmo é o que estas gentes falaram após as duas reuniões que fizeram às pressas para decidir se haveria GP ou não. Disse Domenicali: “Pessoalmente, eu me sinto absolutamente seguro. Se não fosse assim, eu não estaria aqui”. Realmente alentador. Daí veio Mohammed ben Sulayem, o novo presidente da FIA: “Estão atacando a infraestrutura, não os civis e, obviamente, não a pista. Checamos os fatos e temos garantias do mais alto nível de que este é um lugar seguro. Vamos correr”, minimizou o dirigente, que é emiratense e, pois, deve saber como seu país contribui para tal situação. As tais garantias vieram de uma delegação saudita que participou da segunda reunião.

Ficam, então, as seguintes perguntas: se os sauditas sabem que teoricamente os Houthis só atacam infraestrutura, como é que eles, ao menos nestes seis dias, não fizeram um esquema de segurança para um alvo tão importante para a economia saudita como a refinaria da Aramco ou não se preocuparam em evitar o ataque como forma de maquiar – sportswashing incluso – com a chegada da Fórmula 1 o conflito? Quem é que banca mesmo que os Houthis não atacam civis em um cenário que já matou quase 400 mil pessoas? Domenicali e sua trupe têm exata dimensão do conflito? Quem é Domenicali na fila do pão que falta ao Iêmen para ser a voz da garantia de uma série de vidas em meio a este conflito?

Cêis vão me desculpar, mas não me entra na cabeça que, depois de meia hora deste ataque, não tivesse ninguém pegado suas coisas e partido para o aeroporto mais próximo para vazar o quanto antes de Jedá. Ninguém, nem o mais alto representante da Defesa saudita, tem a mais puta ideia de garantia de segurança àquela gente. Os Houthis ajudaram a matar seu povo; por que se preocupariam com as vidas de meros pilotos de carros de corrida?

A decisão de ter e manter um GP da Arábia Saudita com uma alegação tipo ‘la garantia soy yo’, sem se escorar em uma razão minimamente plausível ou mesmo racional, mostra a que a Fórmula 1 se presta. Mostra que, aparte ser um evento esportivo de alta competição, não presta.

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Marc Márquez: hora de se aposentar?

A dor de receber uma notícia que impeça a sequência de uma carreira deve ser tão grande quanto às de lesões graves. A vez de Marc Márquez parece cada vez mais próxima

Jamais imaginei que nossos tempos veriam alguém tão bom quanto Valentino Rossi na MotoGP. Mais – e aí é uma questão pessoal: melhor. Marc Márquez, pelo que fez em seus tempos áureos, mudou a categoria a ponto de mexer na forma como se conduz uma moto.

Márquez é praticamente imbatível em circuitos anti-horário. Márquez angula uma moto a mais de 60º no contorno de uma curva como ninguém. Márquez estuda como resgatar uma moto se ela vai ao chão. Márquez tenta saber cair da melhor forma.

Mas nem sempre consegue evitar cair sem ter consequências graves.

Desde que se machucou no início da temporada 2020, Márquez não é mais o mesmo. Os erros cometidos na operação de seu braço tiraram-lhe aquele algo a mais. Mesmo assim, quando tentou voltar no campeonato seguinte, ganhou corrida e tentou se manter no ritmo. O ponto é que passou a desenvolver, face às quedas, uma diplopia.

A visão dupla deve ser um horror: imagina enxergar tudo como uma sombra ou realmente dois objetos em vez de um. No caso de Marc, a reincidência vai aumentando a gravidade. Por meses, o espanhol ficou afastado das pistas por este problema. Que voltou, em menor escala, após a ejetada que teve no warm up do GP da Indonésia e que impediu sua participação na corrida.

Márquez foi já visitar um médico em Barcelona para que avalie as consequências deste novo caso e quando poderia voltar a competir. Não é necessário que Lumena Aleluia apareça para dizer que isso é muito grave. Porque é notório que qualquer queda que Marc venha a ter daqui pra frente possa causar este distúrbio do qual não vai mais se livrar.

A dor de receber uma notícia que impeça a sequência de uma carreira deve ser tão grande quanto às de lesões graves. Recentemente, vários jogadores de futebol tiveram de abandonar os gramados por questões cardíacas. Ao que parece, a vez de Marc Márquez pendurar o capacete está bem próxima. E mesmo que seja contra, que tenha a serenidade e a consciência de entender que, acima da sua capacidade imensa para pilotar uma moto, está sua saúde e sua vida.

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Bar, hein – 2

A Ferrari ocupa o lugar da Mercedes, e vice-versa. A Haas ocupa o lugar da McLaren, e vice-versa. E Leclerc substitui bem Hamilton na briga com Verstappen com um adendo importante

Assim que o evento no Bahrein teve seu fim, tenho impressão que Stefano Domenicali, Ross Brawn e outras cabeças fortes da Fórmula 1 deram um largo sorriso e só não abriram uma ou duas champanhes porque o país não permite. Ainda que aqui e ali o cenário se pareça similar ao anterior, com a mudança de quem vem à frente, a nova configuração aerodinâmica se mostrou um acerto à medida em que vai mostrar, aos poucos, o avanço das equipes com estes carros e uma competição mais embaralhada.

A Ferrari ocupou o lugar da Mercedes, e vice-versa. A Haas se transformou na McLaren como a quarta força, e também vice-versa. Mas nestes dois casos, a Mercedes tem muito ainda o que evoluir assim que resolver os ‘cinco ou seis problemas’ do W13 e a McLaren, ao que parece, precisa rever, e tem como, o projeto para não ocupar a rabeira da F1, ao passo que a Haas pode não manter o ritmo por ausência de recursos financeiros.

A Alfa Romeo deu um belo salto de qualidade. A Alpine ainda precisa achar o melhor ritmo e a AlphaTauri tem algo a mais, mas ambos os carros parecem sensíveis demais às temperaturas, uma tendendo ao frio e a outra, ao calor. Aston Martin e Williams deixaram muito a desejar, mas, de novo: os carros não são uma tragédia. O ponto é que a primeira tem dinheiro, dentro do teto orçamentário, para se desenvolver e a segunda, nem tanto.

Posto isso, aos pilotos: na ausência de Lewis Hamilton, Charles Leclerc o substitui bem na briga com Max Verstappen. Aquela disputa por três voltas depois que ambos pararam para os boxes me resgatou àquele GP da Inglaterra de 2019 em que o piloto da Ferrari jamais se permitiria terminar atrás do da Red Bull. Em especial, o segundo troco: Leclerc passou por fora e jogou de leve o carro para ficar bem à frente do rival no contorno da curva 4 e impedir qualquer ação de Max. É um cartão de visitas bem dado. Porque justamente foi um dos pecados de Hamilton em 2021: às vezes, era superado facilmente por Verstappen, como em movimentos vistos no GP da Arábia Saudita e até mesmo aquele que deu ao holandês o título na volta final em Abu Dhabi. Sim, Lewis se defendeu mal em muitas das vezes e não tinha a mesma agressividade que Max.

Mas a Red Bull que, no ano passado, era inquebrável e assim parecia desde a pré-temporada pifou em dose dupla. Verstappen teve um problema na bomba de combustível nas voltas finais e abandonou. Sergio Pérez, terceiro até a última volta, rodou na curva 1; diz ter tido falha no motor. É começo de temporada, todos devem passar por isso, mas é uma dorzinha de cabeça que incomoda considerando que há uma corrida, novamente na Arábia Saudita, já na semana que vem.

Quer dizer, se não houver nenhuma surpresa de última hora, né, porque a Coalisão Árabe diz que interceptou e destruiu na noite deste domingo um “alvo hostil” lançado na direção de Jedá, segundo a TV estatal daquele país. A milícia Houthi lançou drones que atingiram uma planta de distribuição da Aramco, aquela que hoje é patrocinadora máster da Aston Martin e tem negócios com a F1.

Voltando à corrida, Carlos Sainz, terceiro o tempo todo, acabou herdando a segunda colocação, porém consciente de que o fim de semana não foi lá estas coisas. De fato, esperava-se mais do espanhol. Ao menos, foi sincero. Sainz será um player importante nesta briga, e se a Ferrari de agora é a Mercedes de antes, não se espera dele um papel daquele Valtteri Bottas de forma alguma.

Hamilton ficou com terceiro lugar que talvez nunca esperasse. A Mercedes vem em um projeto de contenção de danos até que extraia deste modelo único seu melhor. Assim, a alegria de Toto e Susie Wolff ali no paddock ao ver seu piloto no pódio era significativa. “Oh, querido esposo, é algo fabuloso”, disse ela, segundo vozes da minha mente. “Oh, querida esposa, é algo muito fabuloso”, ele retrucou.

Ainda que tivesse sido o que tem sido desde a pré-temporada, George Russell fez ali 12 pontos discretos com o quarto lugar que seria um sexto. Ainda não se sabe o que esperar do inglês para a temporada.

E Kevin Magnussen, hein? Ah, que delícia. P5 para o “fucking viking”, como celebrou Guenther Steiner após a prova. O dinamarquês cometeu dois erros no começo da prova na freada da curva 1, e foi por isso que perdeu as posições de Pérez e Russell que havia conquistado na largada. A Haas não tem ritmo para brigar com a Mercedes, mas não terminaria tão atrás se a prova não tivesse o safety-car acionado pelo fogo na AlphaTauri de Pierre Gasly. Ainda é um modelo com problemas de confiabilidade, mas a Haas é rápida. Dá para brincar aqui e acolá.

Bottas terminou em sexto depois de despencar para 14º na largada. A recuperação foi interessante, mas aquele Bottas 2.0, 3.0, qual seja a versão, ainda está ali. Tem nada de 5.0, não. Esteban Ocon foi o homem da Alpine na corrida, passando três vezes o companheiro Fernando Alonso, que não esteve bem. Aos dois, de qualquer forma, sobraram pontos pelo sétimo e nono lugares, respectivamente. As outras duas posições de premiação ficaram com Yuki Tsunoda, oitavo, em boa apresentação, e Guanyu Zhou, décimo, sólido e de certa forma impressionante.

De resto, não consigo encontrar palavras para o que vi da McLaren a não ser compará-la aos tempos de Éric Boullier. Que horror! E se na Indy poderia haver algum alento, o pole Felix Rosenqvist e Patricio O’Ward cometeram erros primários nos boxes no oval do Texas que os tiraram da disputa. Zak Brown deve estar pedindo doses de corote para conseguir sobreviver a este dia.

E tenho impressão que Laurence Stroll vai virar shots com o colega. Escondidos, claro.

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Bar, hein

O GP do Bahrein traz a expectativa, sobretudo, de como a Ferrari vai agir para cercar Verstappen tendo de lidar com dois pilotos do mesmo calibre

A pré-temporada da F1 2022 não foi um engodo. A briga deste início de temporada se resume a Verstappen x Ferrari, e o primeiro capítulo da história indicou que o piloto da Red Bull não terá vida fácil. A F1-75 é muito bem nascida, mas, sobretudo, tem um canhão a empurrando.

Basta ver o desempenho de Haas e Alfa Romeo.

A pole em Sakhir volta a mostrar o quanto Charles Leclerc é preciso em ritmo de classificação. Disse Mattia Binotto após os testes da semana passada, em tradução simples, que agora o mundo do que o monegasco é capaz com um carro de ponta. Não desperdiçou a primeira oportunidade.

Verstappen ficou ali em segundo e sentiu um gosto amargo. Porque todos os sinais apontavam que o primeiro lugar no grid seria seu. A Red Bull aposta agora em um ritmo de corrida forte, mas a questão é realmente este motor da Ferrari: em reta, deslancha, e o DRS será fundamental para as pretensões do neerlandês – adaptemo-nos ao vocábulo.

Pior para Max nesta briga é que, se antes só tinha Lewis Hamilton para lhe enchouriçar a vida em 2021, há um Carlos Sainz faminto e sedento. Por um instante, também, a pole lhe coube. No fim, a diferença entre os dois pilotos foi de meros 0s006. Sainz não é Valtteri Bottas: é bem mais competitivo e azedo. Além disso, larga do lado limpo da pista no terceiro lugar. Seria normal, portanto, ver as Ferrari contornando a primeira curva à direita em primeiro e segundo.

Sergio Pérez foi tão discreto e insosso que não se sabe o que esperar dele na pista onde venceu pela primeira vez na F1. Só o que lhe resta é esperar um enrosco do qual possa se beneficiar, do contrário será o quarto colocado. Aí, então, vem Hamilton.

Tudo que Hamilton falou desde a pré-temporada se confirmou: a Mercedes não tem carro suficiente para brigar por vitórias. Este começo de campeonato servirá para minimizar os erros, coletar o máximo de pontos que puder para, assim que acharem o verdadeiro potencial do W13, tentar recuperar o tempo perdido. O problema é a duração deste tempo. Hamilton, a bem da verdade, fez a melhor volta que podia no Q3. Porque não seria nada estranho vê-lo largando ali em sétimo ou oitavo.

O sexto lugar de Bottas é um alento. Porque provavelmente sofreria para passar para o Q3 se tivesse ficado na Mercedes. Há um bom potencial nesta Alfa Romeo que ainda precisa se mostrar confiável. O carro é o mais leve do grid e, se sofreu anos atrás com o motor Ferrari que a FIA obrigou a cortar potência, agora se beneficia dele. Só que ali na equipe, Bottas será Hamilton: pouco se espera de Guanyu Zhou, que apenas larga em 15°. O chinês perdeu sua volta rápida ao passar os limites de pista, mas deveria ter ocupado um 12° ali que o deixaria ainda distante. Mas OK, é estreia, que se dê lambuja necessária.

Então vem Kevin Magnussen. Sétimo. Dava para ter sido até melhor porque só deu uma volta rápida e depois que a Haas mexeu no carro para rapidamente arrumar uma pendenga hidráulica. Mick Schumacher é 12°, mas poderia ter conquistado a vaga no Q3 não fosse um erro na volta final. Tal qual a Alfa Romeo, a questão é meramente a confiabilidade: se terminarem a prova, estarão nos pontos. Nikita Mazepin deve estar torcendo a cloaca de raiva. Pagaria um PPV só para assistir deliciosamente a sua raiva expressa naquela face ovalada.

O oitavo lugar ficou com Fernando Alonso. A Alpine ainda precisa explicar a que veio. Esteban Ocon ficou pelo Q2 em 11°. Os dois brigam ali pela parte final dos pontos neste domingo. Mas também tem de mostrar a resistência necessária, algo que incomoda o time francês.

George Russell em nono. Mal na volta final, muito mal. O inglês deve ter soltado, à Senna, que a Mercedes cagou no carro justo na sua vez. É um exagero, até, porque há potencial, e muito. A Mercedes precisa resolver a questão do quique. Russell há de sofrer um pouco por isso.

Pierre Gasly fechou o top 10 com uma AlphaTauri que, sinceramente, deixou a desejar. Para aquela que se mostrava como uma quarta força, a equipe demonstrou no aplauso efusivo após o Q2, quando o francês se colocava em nono e passava para a fase final, que o limite estava alcançado. Um ponto curioso é que Gasly era o mais rápido do primeiro setor e perdia muita performance nos dois seguintes. Yuki Tsunoda? Risos. 16°. É o que dá querer insistir no erro.

No mais, a McLaren vai viver tempos de Éric Boullier com este carro que, no fim das contas, parece errático. Era, de fato, um carro 8 ou 80: ou vinha para a ponta ou ficava no fundo do pelotão. Mas se ver ali em 13° com Lando Norris e 18° com Daniel Ricciardo é bem pior do que se imaginava. Dá até para se dizer que a McLaren começa o ano só à frente de Aston Martin e Williams.

O GP do Bahrein traz a expectativa, sobretudo, de como a Ferrari vai agir para cercar Verstappen tendo de lidar com dois pilotos do mesmo calibre. Palpite? Dá Verstappen, na estratégia. Binotto ainda é espresso corto neste jogo. Mas o domingo promete.

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O que fica da pré-temporada

Max Verstappen pinta como favorito, mas a Ferrari tem um carro muito bom em ritmo de corrida que pode dar jogo a Charles Leclerc e Carlos Sainz. A Mercedes tem questões, mas não dá pra descartar

A F1 fez dos testes do Bahrein sua apresentação oficial para a temporada 2022. O objetivo era mostrar tudo que era possível uma semana antes da abertura do campeonato no Bahrein. Mas se não pode dizer que as equipes escancararam o melhor que tinham – ou que está claro entender a ordem de forças e a capacidade de cada uma.

Dentro do cenário apresentado, é certo que a Red Bull vem com um RB18 muito bem acabado e pronto para dar a Max Verstappen a chance de brigar pelo bicampeonato. Na outra ponta, a Mercedes parece repetir os problemas da pré-temporada passada e tem um trabalho até ajustar seu ousadíssimo W13. Entre elas, surge uma Ferrari que vem como uma terceira via bastante confiável.

Fiquei particularmente curioso com a reação da Red Bull quando Verstappen marcou 1min31s720 neste sábado. A felicidade se fez plena nos boxes da escuderia. Até Helmut Marko teve de segurar seus cacarecos diante da graça do tempo. Ao que parece, a equipe estava esperando justamente por aquilo e ficou feliz de ver que, em um mínimo acerto para volta rápida, bateu a meta. Com um novo sidepod, mais bem trabalhado, a Red Bull pinta como favorita. Verstappen, se pudesse, comemoraria junto com os seus.

A Mercedes tem uma dificuldade a mais antes do começo da temporada. Porque se no ano passado teve duas semanas e meia para ajustar seu nervoso carro, desta vez são apenas quatro ou cinco dias para encontrar uma solução de uma obra de arte que encontra problemas no contorno das curvas e também no quique em alta velocidade nas retas. O risco de fazer um carro ‘slim’ traz estas coisas. Mas é impossível descartar o time de Lewis Hamilton: assim que estiver com o acerto ideal, vai para as cabeças. Outro ponto: a quase imperceptível participação de George Russell nos testes. Ficou lá na dele, apareceu pouco. Hum.

À Ferrari, aplausos. O desempenho na pré-temporada só não foi impecável porque ainda não solucionou a questão do ‘porpoising’ em um carro que insiste em galopar e chacoalhar as cabeças de Charles Leclerc e Carlos Sainz. Chamo a atenção para a declaração de Mattia Binotto, assim que acabaram os testes, para a Sky Sports Itália: “Vocês sempre me pediam que eu desse um carro bom a Charles. Vamos ver o que ele é capaz de fazer”. Binotto se vê correndo por fora. Não creio que seja apenas uma ‘outsider’: se não for a mais rápida em volta única, a Ferrari vai muito bem em ritmo de corrida.

Estou particularmente surpreso com este carro da Haas. Os tempos que fez nas ‘prorrogações’ de sexta e sábado, que puseram Kevin Magnussen em primeiro e Mick Schumacher em segundo, respectivamente, ao menos mostram que o VF-22 está longe de ser uma draga. Há problemas de confiabilidade a serem resolvidos, mas para um time que passou as últimas semanas envolto nas agruras da saída de patrocinador e piloto por conta da guerra Rússia-Ucrânia, há um certo alívio para Guenther Steiner.

De forma geral, também, não vejo carros ruins nas demais seis equipes, o que nos leva a crer que o pelotão intermediário terá uma rotação a cada etapa. A McLaren apagou a boa impressão de Barcelona com três dias ligeiramente terríveis, a começar pela ausência de Daniel Ricciardo, com covid-19, e por falhas nos freios. A Alpine é até rápida, mas quebra demais, tal qual a Alfa Romeo. A Williams tem algumas questões a resolver, mas uma equipe que serviu de inspiração para a Mercedes não pode ter feito um bólido errado. A Aston Martin ainda é uma incógnita, mas está no bolo, com um trabalho que nem ela mesma entendeu. Aquela que aparenta ter tido uma pré-temporada sem problemas é a AlphaTauri. Seria, na minha visão, a melhor do resto.

Se tivesse de fazer apostas, jogaria numa briga entre Verstappen, Sainz e Leclerc pela vitória no GP do Bahrein. Com aquele medo/respeito de me enganar completamente em não colocar Hamilton no balaio. Mas a expectativa é absurda diante das cartas que temos. O jogo há de ser bom e mais diverso em 2022.

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Mercedes slim e treta, sim!

W13 impacta pela ousadia e já faz Christian Horner reclamar e depois ser dissimulado. Pietro Fittipaldi, em último, ainda quer a F1...

A estreia da F1 2022 em tons oficiais deu-se nesta quinta-feira no Bahrein. Se não foi brilhante nos tempos, a Mercedes foi impactante com seu W13 modificado e com sidepods meramente obrigatórios por regulamento. Se pudesse, a equipe octacampeã não colocaria as entradas de ar laterais e faria um carro ainda mais ‘slim’ e compacto.

A partir daí surgiu a primeira treta com a Red Bull. Michael Schmidt, repórter da Auto Motor und Sport, perguntou a Christian Horner o que achava do carro da rival. O dirigente, segundo a revista, já veio com um papo de desmerecer e contestar a legalidade do W13. Tão logo a matéria foi publicada no site da AMuS, a Red Bull prestou-se a dizer que Horner não havia falado e que não falaria com ninguém sobre a Mercedes. Até os colegas de Schmidt estranharam. A Red Bull insistiu e disse que Horner não tinha dito nada. Mas o caso foi parar no ouvido de Toto Wolff, que já soltou: “Como é que ele sabe [se é ilegal] após ver o carro por meia hora?

Ross Brawn andou pelo paddock e garantiu: todos os carros estão dentro do regulamento. Mas certamente haverá muito debate ao longo dos próximos dias.

Também porque a Mercedes ousou demais. Os suportes dos retrovisores são basicamente asas. Há até uma foto que rondou a internet que aponta que a escuderia alemã pode usar um ‘tubarão’ no centro do halo. Horner há de descer das tamancas.

O novo regulamento surpreendeu a todos no fim das contas: muitas ideias diferentes foram criadas. Todos os dez carros são distintos entre si.

Na tabela de tempos, a Mercedes foi módica: nono com George Russell, 11º com Lewis Hamilton, que se queixou do mau acerto. O carro sai muito de frente, segundo o heptacampeão. No ano passado, também no Bahrein, o time sofreu e já dava a entender que seria um trabalho árduo de recuperação ao longo da temporada. A ousadia paga seu preço.

Pierre Gasly pôs a AlphaTauri na frente, mas tratou de minimizar o resultado dizendo que o dia foi para solucionar problemas. Seu tempo foi feito com os C5, os mais macios dos pneus. Depois vieram as Ferrari de Carlos Sainz e Charles Leclerc. Se tivesse de fazer uma aposta ousada para esta temporada, seria nos carros #55 e #16. A linda e bem acabada F1-75 é resistente e confiável, além de rápida. Ao que parece, solucionou o problema do ‘porpoising’, o efeito que fazia o carro galopar nas retas. A AlphaTauri, aliás, precisa resolver isso.

A Aston Martin apareceu em quarto com Lance Stroll e em oitavo com Sebastian Vettel. É ali onde tem ficado. Talvez seja a maior das incógnitas da temporada. É o carro com as linhas mais bem rabiscadas, mas ninguém anda dando a confiança necessária. Surpresa, mesmo, é ver a Williams andando bem novamente, com Alexander Albon em quinto. O curvilíneo FW44 não há de ser o pior deste ano.

A Red Bull teve Sergio Pérez na pista. Foi décimo, com o ótimo adendo de ter encerrado prematuramente o dia de treinos ao ter rodado em pleno regime de safety-car virtual e parado num dos únicos trechos com brita da pista.

Por fim, Pietro Fittipaldi foi o último. Andou com o carro ‘danês’ da Haas com muita carga de combustível. Disse o brasileiro, preterido por Kevin Magnussen: “Obviamente eu queria muito estar no grid em 2022 e sei que estou pronto para isso, mas respeito a decisão do time e seguirei trabalhando intensamente com a equipe dando o meu melhor”. Ao que tudo indica, Pietro vai insistir em ficar na F1. O que é uma pena. Mas cada um sabe o que faz de si.

Teve Briefing hoje no GRANDE PRÊMIO. Participei de alguns minutos até que a luz lamentavelmente acabasse. Ao que parece, houve um incêndio nas redondezas. Voltaremos à programação normal sexta e sábado.

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