Amar é… sofrer
Foi em julho de 2020 que Marc Márquez caiu violentamente na abertura do curto campeonato da MotoGP, o primeiro afetado pela pandemia da covid. A amada Honda RC213V lhe traiu, batendo em seu braço e o levando para a mesa de cirurgia. Apressado, até fez flexão após ter sido costurado para voltar logo às pistas. O tempo acelerou e mostrou o mal que o espanhol se fez: foram outras e tantas operações que era necessário, no fim, consertar o juízo.
Se para Márquez a vida como piloto passou a ser outra – até mesmo considerando não ser mais piloto – , para a Honda foi o atestado da derrota. A Honda só existia na MotoGP para amar Marc. Todas as motos foram construídas à vontade de seu querido. Uma vez sem ele, olhar para a garagem do lado e enxergar o irmão Álex só poderia trazer uma nuvem de lágrimas.
Não adiantou em 2021 trazer Pol Espargaró; a Honda só voltou a vencer quando Márquez minimamente recobrou a lucidez e a força necessárias para tal. Foram três triunfos naquela temporada, mesclada por novas ausências e a presença de Stefan Bradl, o fraco reserva de não muito luxo, como seu substituto.
É 2025. Nunca mais aquela Honda de fábrica voltou a vencer. OK, convenhamos, com Iker Lecuona, Joan Mir e Luca Marini, é difícil, ainda mais com uma Ducati tão dominante, mas Marc foi quem mais tentou até o fim de 2023, quando viu que o negócio mesmo era vestir um vermelho de passagem para então chegar à equipe de fábrica de Borgo Panigale.
A Honda não tem razão de existir na MotoGP sem saber amar outro alguém.
Vira a chave para a Fórmula 1. Ali está uma Red Bull que também soube amar. Depois de um 2009 de paixão, 2010 foi a explosão de amor com o primeiro título daquela forma, numa Abu Dhabi em que, no multiverso, Vitaly Petrov ainda está na frente de Fernando Alonso. O amor se intensificou e virou gozo jorrante até 2013. Dominando tudo e com filhos em formato de quatro títulos, Vettel começou a não dormir na mesma cama em 2014 vendo que a mudança de regras não lhe deixava com aquilo pra cima. Pediu o divórcio no fim daquele ano para se entregar ao amor de todos os pilotos.
A mais pedófila das equipes passou a buscar desesperadamente alguém que pudesse amar novamente. Largou muito moleque ao longo do caminho até acertar em Max Verstappen. Foi à primeira vista: aquela vitória na corrida de estreia em 2016 na Espanha.
A partir daí, a Red Bull levou Verstappen para sair, pagou o jantar e levou em casa. Daniel Ricciardo foi percebendo isso. Escondeu o sorriso e aguentou até o fim de 2019.
Em 2020, o pobre Alexander Albon só foi lembrado pelas derrotas na Áustria e no Brasil. Dura com quem não é Max, a Red Bull o dispensou.
No mesmo ano em que Márquez dava à Honda principal seus últimos suspiros, muitos tantos foram dados na Red Bull com um Verstappen que ousou peitar Lewis Hamilton. Independente de como foi, como não amar o que aconteceu em 2021? O título só deu a Verstappen uma certeza: a equipe estava em suas mãos. E foi com cheiro e chamego que vieram dois títulos fáceis na sequência. O amor era tamanho que abraçava a sombra do companheiro-apêndice, Sergio Pérez.
Mas Verstappen precisou usar um chicote sado-masô em 2024 – que atingiu Lando Norris várias vezes, diga-se. O amor deu sinais de que estava abalado. Sem um carro dominante, teve de tirar de si, na base do ódio, o melhor. Ao lado, Pérez inflamou e suturou. A Red Bull fingiu cuidar. Amou e amou o único que consegue amar. Largou quem pagou com muito dinheiro.
2025. 2 corridas. Liam Lawson nem deu tesão. Vem aí Yuki Tsunoda. Coitado.
A Red Bull, se pudesse, faria como nos anos 80 e 90 em que era possível correr com um carro. Na prática, o carro que ela concebe desde então é só para Verstappen. É compreensível que o faça pelos resultados. Não é a partir do momento em que deve saber que o amor só existe do outro lado por interesse. E a parceira Honda, agora sob a batuta da HRC, conhece bem a história e só não conta de cor e com detalhes o que viveu/vive na MotoGP porque estará na Aston Martin no ano que vem.
Ou será que a Red Bull não se tocou que a Honda, de tanto saber essa história, é quem quer amar mais e melhor Verstappen para ter um novo Márquez na sua vida? Que, a partir deste GP do Japão, a Honda vai fingir novamente amar Tsunoda para disfarçar?
Christian Horner, Helmut Marko e o resto têm poucos dias para fazerem o cupido acertar novamente. Sem Verstappen, a Red Bull não terá ninguém. E a Red Bull não sabe mais viver sem amar.


