O punhal na alma e a resistência de quem quer vencer

Naquele novembro em que a F1 voltou a São Paulo, as cenas de sempre se repetiam em Interlagos em um espaço de arquibancada em que os marmanjos precisam se sentir mais marmanjos: lá dos lugares mais altos sobre as ripas de madeira, viam ali as mulheres jovens que queriam diversão com os carros e os pilotos e proferiam os assédios mais primitivos e toscos, aquelas frases e definições que a gente sabe bem como e por que existem. Mas com os tempos de zilhões de redes sociais, saber o que rolou e quem são os assediadores fica mais evidente. Havia meninas que estavam ali pela primeira vez, e depois da sexta-feira, sequer quiseram voltar; outras que foram insistência tiveram de seguir até mesmo um dress code previamente combinado em grupos para evitar que ouvissem um replay – na prática, atuarem como numa Arábia Saudita repressora.

Foram poucos, mas houve homens que se insurgiram contra os machos de pouca-pica. Houve uma amenização, mas nada que venha a curar o comportamento. Para uma degustação completa do caso em si, recomendo fortemente abaixo o WGP, programa do GRANDE PRÊMIO feito por Evelyn Guimarães, Juliana Tesser e Ana Paula Cerveira a reboque da excelente corrida em pista.

O que eu fico me perguntando por vezes é o que leva uns cidadãos que pagam pelo menos 700 contos de rachadinhas a agirem como neandertais que estão lá não só para acompanhar uma corrida dos mais rápidos carros do mundo, mas importunarem pessoas do sexo oposto por sua aparência física, por sua roupa, por sua presença. Seria mais eficiente se aplicassem este dinheiro em uma terapia ou psicanálise porque o caso não parece se resolver amigavelmente numa conversa ou simples toque. A PM não está ali fazendo qualquer cordão ou marcando presença com seu cassetete. O evento em si também não disponibiliza segurança suficiente para atuar. No ano que vem, lá estará o grupelho agindo esperando a primeira mulher para soltar o imbecil gracejo que leve os seus a rirem.

Daí vem a semifinal da Copa São Paulo de Futebol Júnior. Palmeiras x São Paulo, sábado à noite, dia lindo, cenário propício para ir ao estádio. Mas não. Só pode ir ao estádio a torcida do São Paulo, porque há uma proibição da presença de duas torcidas no estádio, porque as mentes brilhantes que não frequentam estádio são pequenas, porque as mentes de quem comanda são pequenas mesmo, se desse privatizariam as torcidas, assim também davam um jeito de preto não ir a estádio, mas tá lá, torcida do SPFC entra, do Palmeiras vê de fora, nem pode gritar ‘ôôôô… Trikas!’ num tiro de meta. Dadas as condições, rola o jogo, jogo interessante, Palmeiras abre 1 a 0 logo no começo, perde chances de ampliar a vantagem no primeiro tempo, apito, apito de novo, segundo tempo do São Paulo, aperta, aperta mais, bola na trave, paralisações, 7 minutos de acréscimo e invasão de campo.

Não eram apenas gaiatos que queriam partir pra cima da molecada verde na intimidação: um deles portava um punhal. Aos 22 dias da desgraça de 2022, um sujeito saiu do cafofo dele para ir a um jogo de futebol sub-21 sem torcida rival portando uma arma branca. Não imagino que tenha sido para descascar uma laranja enquanto se comove com a peleja, afinal a laranja não teria passado aos olhos dos atentos PMs. Não quero também atrelar o torcedor à facção que dias atrás soltou uma carta imponente se rebelando contra o termo Trikas, mas é importante salientar que esta organizada, segundo o repórter Giovanni Chacon, da Jovem Pan, fez um corredor polonês na saída do estádio e ameaçou quem usava piercing, dread e outros, de modo que há um comportamento de superioridade de raça – que sabemos bem onde encontramos isso na história –, e provavelmente há um regimento interno que impõe aos seus se portarem desta maneira totalitária.

Há tempos que o futebol entrega mais frustração do que êxtase. Não é o jogo em si: o meu ou o seu time perder é inerente ao esporte; a questão é o pacote. É a beligerância das gentes que não sabem conviver entre si e tratam o torcedor rival como inimigo; é a resposta indigna que o Estado dá impedindo quem quer de fato torcer, e aí barra a entrada de quem tem livro, xampu ou caneta, proíbe o terrível sinalizador, proíbe o fatal cartaz de papelão provocativo, proíbe a presença dos torcedores do time de fora da casa em SP; e aí a PM, que não deveria ser bedel de marmanjo, faz o que se espera de quem tem a essência da ditadura: existe e erra, e então proíbe o que não deveria ser proibido e deixa passar o que representa perigo, e, diante do perigo, vai lá o grupo de fardados poderosos agir como coelhinhos da Duracell, não com as baquetas, mas com os cassetetes na mão, para descer a porrada, e se pode resolver na conversa, não importa, é porrada, porrada, porrada, o corpo no chão, a criança com medo, foda-se, é porrada, porque a vida é descer a porrada. Mas o que a PM fez no caso lá do vagabundo com punhal num jogo semifinal de juniores? Nada, porque aí tiram a pilha do fardado e ele não sabe o que faz. O que o Estado vai fazer com o vagabundo que levou o punhal? A gente sabe, nada, no máximo descobrem o CPF por pressão, detém por um tempo e depois deixam pra lá, esquece, o tema do momento é outro, mas o importante mesmo é reunir os engravatados e os fardados com os calças apertadas para que pensem em mais proibições e aumentem o número de fardados com cassetetes nos estádios em que o público tem de se portar como em um teatro.

Quem, na plenitude da capacidade mental, tem hoje gosto real para torcer no Brasil sabendo que a F1 não é uma corrida de carros de alta performance com 20 pilotos e futebol não é uma prática esportiva de 90 minutos de jogo entre duas equipes, mas a exposição em tempo real e multimídia do porão da nossa sociedade?

Os tempos de hoje, na esfera geral da merda que 57 milhões ajudaram a eleger, inflam esse comportamento violento. Muitos destes refletem o discurso sempre raso e tosco do inominável e encontram respaldo na ausência de punição. O assédio do cara que vai ao autódromo para intimidar as mulheres que nem conhece mexe na nossa mente. O punhal do cara que vai ao estádio para atacar o rival que nem existe finca na nossa alma. A falta de combate a quem nos mata aos poucos nos mata mais ainda.

Mas a iminência da derrota ainda lida com a resistência de quem tenta vencer. Ela não vai acabar na bandeirada ou no apito. A gente ainda há de torcer em paz no esporte. E torce para este ano correr rápido para ver se consegue consertar o estrago do mal imposto como modo de vida.

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