SÃO PAULO | Dois dias de treinos já deixaram bem claro que nenhuma equipe tem carro para fazer frente à Red Bull — mais especificamente, ao de Sebastian Vettel. Só uma hecatombe, como asas-barreiras ou um anti-Kers, seriam capazes de tirar a vitória do alemão na corrida que tem início às 3h (de Brasília), depois do que fez no treino classificatório deste sábado (26) na Austrália. E como o RB7 tem sido avassalador em seu domínio, o que o paddock da F1 começa a especular é o que os taurinos têm de tão diferente em relação aos demais.
Duas vertentes começam a ter uma base, que envolvem exatamente asas e o Kers. A primeira não é recente e já causou certo alvoroço no ano passado: apesar de todos os testes que a FIA conduz para que não haja mobilidade da asa dianteira, a peça da Red Bull é ‘leve’, principalmente em curvas de alta velocidade. A segunda seria uma sacada de gênio do projetista Adrian Newey: um dispositivo que acumula energia só para largadas.
Como explicou o engenheiro Ricardo Divila no especial apresentado pelo Grande Prêmio na última quarta-feira, “há uma regulamentação mais rígida do separador de ar (splitter) dianteiro inferior para evitar que o carro possa andar mais baixo. Isso é testado com pesos regulamentares, não permitindo uma variação de mais de 5 mm quando uma forca vertical de 200 kg for aplicada verticalmente em três pontos do separador — no centro, a 380 mm atrás do centro da roda dianteira e em dois pontos a 100 mm de cada lado”. Numa linguagem mais coloquial e menos técnica, não deve vergar e pronto.
A outra suspeita, não confirmada pela Red Bull, está no Kers, que nada mais é que um acumulador de energia recuperado dos freios, no qual normalmente seria dissipado em calor, que pode ser reutilizado na fase de aceleração. Para Divila, a peça tem seu lado ruim, mas é imprescindível. “Todo esse sistema tem sua penalidade no peso adicional (entre 20 e 30 kg), problema resolvido pelo aumento do peso mínimo de 620 para 640 kg, mas os dois outros problemas, o de aumentar a altura do centro de gravidade e a redução do lastro utilizado anteriormente para equilibrar o centro de gravidade no sentido longitudinal pelo jeito ainda não foram bem resolvido pelas equipes”, declarou. “O Kers não é obrigatório, mas poucas equipes vão abrir mão da vantagem de aceleração nas largadas da corrida.”
Foi aí que Newey redescobriu a pólvora, criando um Kers ‘light’. Durante a transmissão do treino classificatório em Melbourne, ficou evidente que Vettel não apertou o botão referente ao sistema nem teve seu uso identificado pela arte gráfica que a FOM disponibiliza. Segundo o jornalista inglês James Allen, esse Kers de menor peso foi desenhado para funcionar apenas na largada para proporcionar aos seus carros a vantagem de 7 metros que os 80 cv a mais da energia acumulada dão. Assim, o que o RB7 leva em suas entranhas é uma bateria mínima, que será carregada na volta de apresentação antes da largada.
Vettel foi 0s7 mais rápido que a McLaren de Lewis Hamilton e 1s4 melhor que a Ferrari de Fernando Alonso. Acertar a largada, portanto, é meio caminho andado para que o alemão inicie a busca pelo bicampeonato do mesmo jeito que terminou 2010. É só apertar um botão e depois esquecer que existe. O resto, o filho concebido por Newey vai fazer por Sebastian.